segunda-feira, 1 de julho de 2019

LAS CAJAS ESPAÑOLAS




Las Cajas Españolas - É um documentário espanhol que narra fatos ocorridos entre guerras mundiais, de 1936 a 1939. Foram três anos de guerra civil que teve muitas facetas, e diferentes pontos de vista: viram como uma luta de classes, uma guerra religiosa, uma luta entre ditadura e democracia republicana, entre revolução e contra revolução, entre fascismo e comunismo. Os Nacionalistas venceram e governaram a Espanha até a morte de Franco em novembro de 1975.

Os esforços, muitas vezes de personagens anônimos, impediram que extremistas praticassem saques e destruição de monumentos e artefatos a exemplo do ocorrido na Revolução Francesa. Para proteção do patrimônio cultural e artístico a comunidade se organizou e tratou de recuperar e salvaguardar na medida do possível, o acervo espanhol de documentos e objetos. Erros e acertos são mostrados nessa tentativa. Com o ataque ao Museu do Prado por nazi-fascistas se intensificam os deslocamentos de proteção. Inicialmente até Valencia e depois França, as obras de arte são transformadas em reféns, salvo conduto do governo que divulga para o mundo a existência das cerca de duas mil caixas com objetos de arte.
Impressionante relato, narrativa histórica em precisa reconstituição dos fatos. Trabalho primoroso de imagens em movimento. O dilema contemporâneo que serve de pano de fundo ao filme não é heróico: Totalitarismo ou Anarquia. Estar vivo e ter uma vida são coisas diferentes. Las Cajas Españolas apresenta a necessidade fundamental do ser humano em defender o que simbolicamente dá sentido a uma existência digna, contra a condição de zumbis do fetichismo capitalista. O filme nos leva a imaginar um mundo sem imagens, uma vida sem arte, a história da pintura sem as Meninas de Velázquez e a Maja Desduna de Goya. 
Na distopia fascista, anulado o pertencimento social, entre esquecimentos e apagamentos, o que nos restará de vida? Segurança pelo medo, proteção sem dignidade, sobrevivência sem sentido. Navegar é preciso. Cumprir com as tarefas que nos são impostas exigem instrumentos de precisão. Viver não é preciso, é reinvenção, é imprevisibilidade. Vida precisa da arte.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Exposições de Arte são para mim?


Exposições de Arte são para mim?
Sim. Exposições de arte são para todos. A arte é o ofício do artista que a produz para ela comunicar de diversas formas, instigando, provocando a sensibilidade humana. A arte é o exercício da liberdade humana em um mundo possível. As exposições de arte são para criança, adulto, idoso, estudante, trabalhador, aposentado, médico, operário, alguém apaixonado, triste, ninguém, desiludido, professor, dona de casa, avó, tia, mulher, homem, feminista, negro, gay, capitalista investidor, crítico de arte, turista, amigo do amigo, político, empresário, pobre, analfabeto, milionário, traficantes e usuários, doentes e sãos, deficiente físico, cego, surdo ou mudo, casado, divorciado, solteiro, ladrão, assassino, tarado, inocente ou culpado, corrupto, reacionário, anarquista, de esquerda, de direita ou politicamente alienadas.
As exposições ocorrem na maioria das vezes em centros e instituições culturais, museus, galerias; e costumam ser públicas, ou seja, não é preciso pagar nada para visitar. Por serem locais que abrigam arte e têm manutenção de forma a não prejudicar alguma obra, os ambientes são normalmente limpos e arejados, portanto, é agradável de estar ali. Algumas exposições ficam localizadas em bairros interessantes da cidade, nos espaços têm muitas vezes uma pequena loja de souvenirs, ou café, sendo que se torna atrativo frequentá-las.
Recomendações são necessárias e nos ajudam a fazer da visita uma experiência proveitosa. Vou usar como exemplo uma ida recente que fiz à mostra que narra um pouco da história do Atelier Subterrânea, de Porto Alegre, a partir do conjunto de obras existente no acervo do MACRS, oportunizando que o público possa perceber um pouco das trajetórias seguidas pelos artistas.
As peças mostradas foram produzidas em diferentes técnicas: desenho, vídeo, objetos tridimensionais, pintura, gravura. A Galeria Xico Stockinger é também conhecida como Galeria Branca, pois suas paredes são brancas, o piso é branco e o teto também é branco, para que a luz pareça neutra no ambiente enfatizando o que esteja exposto. Da porta de entrada é possível enxergar todo o local expositivo, o que já nos dá a noção do que temos pela frente. Ao lado da porta e antes da escada tem um texto na parede. É a minha primeira recomendação de visita a uma exposição de arte: ler o texto de apresentação. Li o texto atentamente, vejo que ele foi pensado e escrito para comunicar resumidamente epara ajudar a entender qual é a proposta dos curadores. A segunda recomendação é a de manter os braços e mãos seguros. Geralmente, quando tenho a tentação de tocar em uma obra exposta eu me controlo e, com as mãos para trás, agarro uma mão com a outra mão sem soltar, ao mesmo tempo em que coloco minha atenção para o olhar, sem distração. É preciso dizer que se todos que apreciam um objeto artístico o tocassem em pouco tempo certamente ele estaria danificado pelo manuseio. Outra recomendação é observar as etiquetas perto do que está exposto, e assim conhecer melhor sobre a história da obra, seu autor, data em que foi produzida e origem. A exposição é eventual, portanto, as obras vieram de algum lugar e provavelmente voltarão para o lugar de origem. A origem pode ser o atelier do artista ou algum acervo de colecionador, ou ainda uma instituição,outro museu, uma galeria. É possível fazer o exercício de imaginar onde essa obra estaria para além do lugar onde se encontra atualmente. Eu me surpreendo pensando em lugares inusitados de quadros e objetos expostos. Também os artistas e curadores pensam em possibilidades expositivas para realizarem suas escolhas de obras e espaços[1]. Algumas vezes, quando o tempo permite ou a mostra exige equipes de curadores, artistas e profissionais discutem e planejam conjuntamente desde folhetos, comunicação, catálogos, projeto educativo, projeto expositivo e de montagem em detalhes. Tudo para que o trabalho resulte numa experiência significativa para o público, pois a verdade é que sem o público que a perceba a arte falha na sua função comunicativa principal. A quarta recomendação é silenciosa. Especialmente em se tratando da obra de arte visual onde existe a intenção de expressar pela imagem, para que possamos interagir com ela uma mínima contemplação é exigida. Quando eu paro de pensar diante de, por exemplo, um quadro ou escultura e deixo que meus olhos façam uma “leitura”, eu abro a possibilidade para essa interação sensível. Ruídos ou conversas altas atrapalham. Por último, devemos verificar se no próprio local expositivo existe alguma informação, algum cartaz, recomendando quanto ao uso de celular, fotografias, alimentos durante a visita.
Existem muitas razões de ser das exposições de arte. Razões artísticas, históricas, sociais, econômicas, políticas, são algumas delas.  As exposições existem para consagrar o nome do artista, para que algum comprador possa ver uma obra sua e adquiri-la, para qualificarem o currículo de curadores que poderão ampliar o campo de atuação,existem para promover o trabalho de montadores e profissionais ligados à área cultural. Também existem para que as exposições de arte sejam experiências que valorizem a instituição, especialmente se as mesmas contam com nomes importantes do meio artístico[2]. Exposições de arte propiciam questionamentos e aguçam ideias estéticas. A arte permite a reflexão sobre o mundo e você pode pensar o que quiser de uma obra de arte. Pode rir ou chorar, debochar, desprezar, temer, desejar, amar, odiar, ignorar, menosprezar, subestimar, bajular. As exposições de arte são momentos de interação e contemplação, mediando as mais diversas desigualdades e conflitos através do fenômeno artístico. Quando alguém é tocado na sua sensibilidade pelo que a arte expressa uma potência transformadora é eternizada.

O Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – MACRS, Galeria Xico Stockinger fica na Rua dos Andradas, 736, 6º andar da Casa de Cultura Mario Quintana. A curadoria que escolheu as obras e documentos expostos foi de Alexandre Santos, Marilice Corona e Neiva Bohns. É só chegar. Adauany Zimovski, Antônio Augusto Bueno, Gabriel Netto, Guilherme Dable, Gustavo Pflugseder, James Zortéa, Jorge Soledar, Lilian Maus, Luciano Zanette, Rodrigo Lourenço, Teresa Poester e Túlio Pinto. A abertura ocorreu dia 21 de março de 2019, às 19h, até 30 de junho de 2019, de terça a sexta das 10h às 18h, sábados e domingos das 12h



[1] GONÇALVES, Lisbeth Rebollo. A exposição de arte: conceituação e estratégias. In: GONÇALVES, Lisbeth Rebollo. Entre cenografias: o museu e a exposição de arte no século XX. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo/FAPESP, 2004.A partir do século XX, os museus passaram a utilizar paredes brancas, a realizar exposições temáticas. A importância do curador também é tema de reflexão, bem como a receptividade do público a essas novas formas de exposição.
[2]RUPP, Bettina. O curador como autor de exposições. In: Revista Valise, v.1, n. 1, ano 1. Porto Alegre, julho de 2011. Para saber mais sobre intenções curatoriais e as propostas de legitimação, projetos e temáticas artísticas.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Tempo, Espaço, Movimento e Miopia: da Arte do Renascimento à Video-arte

Tempo, Espaço, Movimento e Miopia: da Arte do Renascimento à Video-arte

Jorge Fortuna Rial

Resumo: O presente artigo é resultado de divagações acerca das transformações ocorridas na história da Arte, desde a invenção da perspectiva no Renascimento, passando pelo Barroco e invenção da Fotografia, até a Video-arte, atualmente. É, também, uma busca, em apontar para possíveis conexões, crises e contradições, ocorridas nesses processos históricos, como por exemplo, no caso das vanguardas artísticas, em reação à representação na Arte renascentista e, consequentemente, reação aos modelos simbólicos de representação social daquele periodo. Finalmente, junto a isto tudo, refletir acerca do atual ensino da Arte, na Educação Básica, em ambientes escolares ainda despreparados, especialmente no que tange à interação pública que as redes sociais ampliam, e ao uso das recentes tecnologias da linguagem audiovisual. No contexto histórico-social atual de massiva e fragmentada informação, quais as possibilidades do ensino da Arte e da Video-Arte? São apresentadas breves descrições e comentários fundamentados em leituras de textos escolhidos, sobre teoria da Arte, Video-arte, e outros, que podem contribuir com o trabalho de pensar sobre o assunto. O desejo é o de demonstrar, com a costura dos elementos: conceitos, imagens, relatos e definições - na tessitura do texto, a pertinência das considerações intuídas acerca do assunto.
Palavras-chave: Arte – Educação – História – Sociedade – Video-arte.


É possível confirmar a constatação de que a Vídeo-arte é o projeto artístico do terceiro milênio? Quais as características e diferenças da Video-arte em relação a outros estilos e movimentos, historicamente “consagrados”? Que reflexos, na sociedade e na escola, a Arte e a Video-arte produzem? Isso existe? Como a escola pode se apropriar da Video-arte, enquanto conhecimento da Linguagem? A Vídeo-arte, nos anos 60 e 70, “retoma o caráter das vanguardas históricas e aprofunda o rompimento com a visualidade renascentista” (Machado,1993). Nas telas renascentistas, a realidade ordenada e esquemática surgiu como produto de um olhar dirigido e mecanicamente elaborado por Alberti. Esse novo olhar era responsável pela construção de um sistema de representação cúbica, denominada perspectiva linear no qual os objetos em correspondência são observados por um espectador fixo que define um único ponto de vista. A construção da perspectiva não ocorreu de uma hora para outra. Pelo contrário, ela foi sendo elaborada ao longo de aproximadamente 15 gerações de hesitações e dúvidas, entre avanços e recuos por parte dos artistas. Por exemplo, para solucionar as dificuldades das coincidências entre desenho e luz, os pintores do Quattrocento apelavam para o recurso do claro-escuro, acentuando volumes em profundidade. Muitas vezes o método de representação do espaço cúbico, elaborado por Alberti, entrou em conflito com a profundidade construída. A solução é oferecida graças à presença de uma janela no interior do quadro, recurso conhecido como veduta, atuando como uma vista aberta para a natureza. Essa maneira de representar, dos artistas do Renascimento, foi alvo de negação dos artistas modernos. No período das Vanguardas Artísticas do início do século XX, o clima estava propício para o surgimento das novas concepções artísticas sobre a realidade. Surgiram inúmeras tendências na Arte, principalmente manifestos advindos do contraste social: de um lado a burguesia eufórica pela emergente economia industrial e, de outro lado, a marginalização e descontentamento da classe proletária e a intensificação do desemprego. A Arte Cubista, foi, especialmente, revolucionária. Ela tinha o propósito de promover a decomposição, a fragmentação e a geometrização das formas. Os artistas apostaram na simultaneidade de visualizações permitidas a partir da análise de um objeto, isto é, o mesmo poderia ser visto sob vários ângulos, embora sua totalidade pudesse ser inteiramente preservada. Foi o inícIo da destruição do espaço na pintura (1). Isso provocou uma desacomodação na forma de olhar a Arte e abriu muitas portas para que outros movimentos artísticos, incluindo o Abstracionismo, surgissem. Nessa evolução, a Arte Conceitual, que teve origem nos ready-made, de Marcel Duchamp, irá desconstituir o objeto de arte dos seus parâmetros estéticos definidores. Desloca-se o objeto/obra do seu significado referente, que passa a ser atribuído pelo autor do conceito e, então, o mesmo, é ressignificado na fruição do espectador ou no entendimento do sistema das artes, na mesma medida em que o artista irá se utilizar de produtos já prontos ou ideias inconclusas. A meu ver, após o advento da fotografia e do cinema, muito foi especulado sobre que papel a Arte teria na sociedade. Esses novos mecanismos mostraram-se muito eficazes como forma de recorte da realidade, o que estimulou os artistas, principalmente pintores, a buscarem outras maneiras de expressão. Ao mesmo tempo, a fotografia adquiriu importância como forma de linguagem e comunicação dos novos tempos. Fotografias passaram a ser mais do que a representação de um instante, tornaram-se a expressão da sensibilidade do fotógrafo. Desse modo, o diálogo constante entre a pintura e a fotografia resultou em grandes mudanças no cenário das artes visuais e ampliou as possibilidades de comunicação e expressão do homem na sociedade. No vídeo a imagem é fluída, ruidosa, escorregadia e infinitamente manipulável. Seria essa a representação da sociedade contemporânea? O efeito de realidade no vídeo não se dá com a mesma transparência da fotografia ou do cinema. As possibilidades do aparato técnico que permite transcender ao caráter documental e realismo fotográfico, inovam conceitualmente e sugerem a subversão do próprio aparato para ampliar-se enquanto linguagem. “A Vídeo-arte é o projeto artístico do terceiro milênio, e suas tintas são o som, a luz e a imaginação” (Almeida, 1985). A citação de que “a televisão tem nos atacado e às nossas vidas; agora nós podemos atacar de volta.” - de Nam June Paik (Almeida,1985), reforça a dimensão social da proposta manifestada pelo videoartista enquanto crítica à comunicação de massas. Das primeiras manifestações de uso do vídeo como expressão artística, a Vídeo-arte, com a Performance associava figura humana ao televisor como suporte para a criação. Almeida, no título do texto que escreveu, faz alusão ao artista Diego Rodrigues da Silva y Velázquez que foi um pintor espanhol e principal artista da corte do Rei Filipe IV de Espanha. Era um artista individualista do período Barroco, importante como um retratista. Além de inúmeras interpretações de cenas de significado histórico e cultural, pintou inúmeros retratos da família real espanhola, outras notáveis figuras europeias e plebeus, culminando na produção de sua obra-prima, Las Meninas, de 1656 (2), onde o pintor retratou a si mesmo na intimidade da corte do rei da Espanha. O quadro estabelece um jogo imagético-perceptivo com o espectador fazendo com que o mesmo sinta-se parte integrante da cena retratada. Intui-se, pela referência feita no texto de Almeida, uma conexão que aproxima ambos movimentos, provavelmente pelo fato de que tanto na Arte Barroca quanto na Video-arte se provocará essa relação diferenciada, no fenômeno de apreensão do objeto artístico. Enquanto fenômeno sócio-cultural, para Arlindo Machado, o universo das formas audiovisuais pode ser descrito como decorrência de um certo estágio de desenvolvimento das técnicas e dos meios de expressão, das pressões de natureza socioeconômica e também das demandas imaginárias, subjetivas, estéticas de uma época ou lugar. Sob essa ótica social do fenônomeno artístico, ao analisar a crise do Design na sociedade contemporânea, Giulio Carlo Argan (1998), vincula a hierarquia de classes e sua manutenção, através da produção de modelos estéticos, que as classes dirigentes comunicam às classes trabalhadores. Para Argan o que se chama de o fim ou morte da Arte nada mais é do que a crise do objeto como valor. Desde sua origem a Arte é modelo de produção, pois uma atividade que produz objetos de máximo valor. A obra de arte é única, tem o máximo de qualidade, é cara. Está, portanto situada em um vértice de um pirâmide em cuja base encontram-se objetos repetidos e de escasso valor. Ainda assim, existe a relação entre a quantidade e a qualidade, o único e o múltiplo, que constituiu igualmente a relação básica da agregação social. Em uma sociedade hierárquica a obra de arte é adquirida e possuída pelas pessoas mais próximas do vértice e que exercem funções de comando e direção. Se as obras de arte são modelos e a sociedade é composta por classes dirigentes e classes dirigidas, a lógica do sistema é a de que os modelos sejam adotados pelas classes dirigentes que os comunicam às classes dependentes e trabalhadoras, na medida em que podem imprimir um caráter de qualidade à produção repetitiva e qualitativa. Também à obra de arte é atribuído um valor espiritual porque as próprias classes dirigentes afirmam que o seu poder tem uma origem espiritual e até mesmo divina. A crise do objeto, segundo Argan, está associada a crise das sociedades hierárquicas e classistas. Argan conclui seu texto, onde amplia suas constatações para a educação, afirmando ser incrível que a perspectiva de uma cultura de massa não tenha ainda influido sobre o sistema escolar, em nenhum país do mundo. A escola continua sendo um aparelho de classe que tem como objetivo conservar a hierarquia das classes. A Escola é aparelho de difusão da cultura institucionalizada, portanto classista. E, finaliza, apontando para o absurdo grosseiro de se pensar nos sistemas de informação como dilatador quantitativo da cultura de massas sem modificação das estruturas qualitativas da cultura. Argan faz uma crítica contundente à sociedade de consumo que, segundo ele, é irremediavelmente infeliz, pois desequilibra a utilização social da riqueza, da cultura, do ambiente, do espaço e do tempo. O autor aponta para a faculdade humana da imaginação, que possibilita vislumbrar uma possível transformação da sociedade, diferentemente daquela que temos hoje em dia. A imaginação ética e politicamente intecionada ele chama de ideologia, sem a qual não pode haver nenhum projeto. A Arte nada mais é do que a imaginação produtiva. Na crise da Arte e da imaginação se apresenta a possível extinção das agregações sociais baseadas em interesses e orientações ideológicas comuns, afetando diretamente à cidadania enquanto possibilidade democrática do uso apropriado das cidades. As relações culturais, que se travam no processo de apropiação da cidadania, supõem relações de poder e a transmissão da cultura implica poder de dominação. Nesse sentido, a contribuição do pensamento de Pierre Bourdieu é poderosa, enquanto ferramenta para tratar destas questões fundamentais, através de suas reflexões sobre o poder simbólico e violência simbólica e sua consequente implicância nas Artes Visuais e na cultura. No campo da Arte, este conceito funciona perfeitamente, pois o poder está em toda a parte, e não é percebido. Conforme citado em Magalhães (1989), Bourdieu define que o poder simbólico é, com efeito, um poder invisível e, segundo ele, só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem. Desvelado o poder simbólico, as formas da arte deixariam de ser vistas como formas universais transcendentais para se tornarem o que de fato são, formas sociais e arbitrárias, socialmente determinadas representando os valores de um grupo particular. O poder simbólico é um poder de construção da realidade, que tende a estabelecer sentido que supõe uma concepção homogênea de mundo. As artes estão dentro de um sistema simbólico, e os símbolos são, enquanto instrumentos de conhecimento e de comunicação, instrumentos de integração social tornando possível um consenso acerca do sentido das coisas, que contribui para a reprodução da ordem social. Poderíamos explicar as produções simbólicas como servindo aos interesses da classe dominante que querem se apresentar como interesses universais: a cultura dominante contribui para a integração real da classe dominante, assegurando uma comunicação imediata entre todos os seus membros e distinguindo-os das outras classes; para a integração fictícia da sociedade no seu conjunto, portanto, à desmobilização, das classes dominadas; para a legitimação da ordem estabelecida por meio do estabelecimento das distinções hierárquicas e para a legitimação dessas distinções (Bourdieu, 1989, p.10). A cultura dominante consegue isto legitimando as distinções, fazendo com que as outras culturas se definam pela diferença e pela distância em relação a esta cultura dominante. Os sistemas simbólicos seriam instrumentos de imposição e legitimação assegurando a dominação de uma classe pela outra, configurando o que Bourdieu chama de violência simbólica no poder de impor, ou inculcar, uma produção simbólica arbitrária que é ignorada como tal. O campo de produção simbólica, onde está a produção da arte, é um microcosmos da luta simbólica entre as classes. O poder simbólico é uma forma transformada das outras formas de poder, que transforma outras formas de capital – como o econômico, em capital simbólico fazendo ignorar a violência simbólica. Uma maneira de se defender do poder de imposição simbólico, de subverter esta lógica, é a tomada de consciência de que ele é arbitrário, a abolição da crença. Isto pode ser conseguido através da educação, notadamente de uma Educação Intercultural que contemple vozes comumente ausentes do currículo na escola: minorias étnicas, homossexuais, cultura infantil, mulheres, trabalhadores. Historicamente falando, a Arte representou diferentes papéis na educação. Desde a Idade Média, ela foi a ferramenta pedagógica mais eficiente que a Igreja utilizou na conversão de fiéis analfabetos. Esses se valiam das imagens associadas ao relatos bíblicos feitos pelos padres, para realizarem sua educação religiosa. Ferraz e Fusari, em um capítulo que aborda a história da educação em Arte no Brasil, apontam para quatro tendências pedagógicas: Tradicional, Nova, Tecnicista e Libertadora. Sobre a última afirmam que, retomada a partir de 1971, a Pedagogia Dialógica de Paulo Freire é considerada nos dias de hoje como uma Pedagogia Libertadora, em uma perspectiva de consciência crítica da sociedade. (...) agir no interior da escola é contribuir para transformar a própria sociedade. Cabe à escola difundir os conteúdos vivos, concretos, indissoluvelmente ligados às realidades sociais. Os métodos de ensino não partem de um saber espontâneo, mas de urna relação direta com a experiência do aluno confrontada com o saber trazido de fora. O professor é mediador da relação pedagógica - um elemento insubstituível. É pela presença do professor que se torna possível urna "ruptura" entre a experiência pouco elaborada e dispersa dos alunos, rumo aos conteúdos culturais universais, permanentemente reavaliados face as realidades sociais (Cenafor, 1983, p. 30) As autoras acreditam que a consciência e a interferência sobre o processo educativo em Arte é fundamental para o professor e para todos que estão envolvidos com uma educação que se pretende transformadora. A consciência histórica e a reflexão crítica sobre os conceitos, as idéias e as ações educativas de nossa época possibilitam nossa contribuição efetiva na construção de práticas e teorias de educação escolar em Arte que atendam às implicações individuais e sociais dos alunos, às suas necessidades e interesses, e, ao mesmo tempo, proporcionem o domínio de conhecimentos básicos da Arte. O compromisso com tal projeto educativo exige um competente trabalho docente. No caso da ação educativa em Arte com crianças, o professor terá de entrelaçar a sua prática-teoria artística e estética a consistentes propostas pedagógicas (Ferraz e Fusari,1993). No contexto atual, os profissionais da educação defrontam-se com uma política de incorporação das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) à prática docente. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (1988): As novas tecnologias da informação e comunicação dizem respeito aos recursos tecnológicos que permitem o trânsito de informações, que podem ser os diferentes meios de comunicação (jornalismo impresso, rádio e televisão), os livros, os computadores, etc. […] Os meios eletrônicos incluem as tecnologias mais tradicionais como rádio, televisão, gravação de áudio e video, além de sistemas multimídias, redes telemáticas, robótica e outros (BRASIL, 1998, p. 135). Ainda de acordo com o documento: É indiscutível a necessidade crescente do uso de computadores pelos alunos como instrumento de aprendizagem escolar, para que possam estar atualizados em relação às novas tecnologias da informação e se instrumentalizarem para as demandas sociais presentes e futuras (BRASIL, 1998, p. 96). No que tange a utilização do uso de Video-arte, atualmente, em contextos educativos, nas notas introdutórias do seu trabalho, Ángel Roldán (2012) explicita que, existe uma questão de fundo: fazer possível uma educação audiovisual que gere uma cidadania crítica. Quem sabe, afirma o autor, o primeiro passo deva ser averiguar quais modelos e quais metodologias colocamos à disposição dos estudantes para tornar possível essa realidade. Para Roldán, os processos midiáticos são um filtro e uma referência cultural que forma parte de uma estrutura socializadora de primeira grandeza. À força da repetição das mensagens o público é obrigado a imitar o que veem nas telas. A televisão, enquanto instrumento representativo da indústria das consciências, cumpre uma função essencial na modelação do caráter, na interiorização de pautas de comportamento, filtrando princípios e valores. É como uma aula sem paredes e, moderna igreja, onde de modo inconsciente o sujeito vai interiorizando princípios e valores que darão sentido a sua existência. Mesmo que pensemos na linguagem audiovisual, composta meramente pelos elementos do áudio e do visual enquanto formas articuladas de uma mesma mensagem, esses ultrapassam o âmbito profissional da comunicação, e, nessa linguagem se podem encontrar vestígios característicos do verbal, proxêmico, metalinguístico. No estudo do caráter narrativo do audiovisual fundamenta-se a ideia de que a comunicação está para além da mídia e da mesma maneira que a educação está para além das aulas. Roldán airma que, tanto a ética quanto a estética do audiovisual contemporâneo serão mediadas pela cibercultura, e que essa, de fato, reestrutura todos os modos de conceber, produzir e interpretar imagens e notícias, constatados na mídia televisiva, no video, no cinema, na indústria gráfica, na telefonia móvel, e em formatos multimídias interativos da internet. Em todos eles, a relação entre a imagem representada e o apresentado, tende a aproximar cada uma das partes – circunstância um tanto contraditória e paradoxal, que nos seduz a considerar a apresentação como representação da realidade (3). As consequências destas alterações – na cultura vigente, transcendem o interesse puramente estético e desencadeam transformações diretas no pensamento humano, no desenvolvimento do conhecimento e na dimensão sócio-política da informação. Roldán não tem dúvidas de que a escola e a educação em geral, continuam praticando uma educação compartimentada, estanque, hermética (4). Atualmente, segundo ele, são numerosas vozes que falam do audiovisual como um elemento da realidade cotidiana que vai ocupar um espaço na educação em todas as áreas do currículo escolar de todos os níveis. A inovação disruptiva, a substituir com radicalidade as tecnologias no âmbito da educação favorece a aparição de novas alternativas que consideram o audiovisual e seus suportes como eixos interdisciplinares para a aprendizagem na nova escola que está por vir (5).

Considerações Finais

De anônimas gentes, sofridas gentes, exploradas gentes aprendi sobretudo que a Paz é fundamental, indispensável, mas que a Paz implica lutar por ela. A Paz se cria, se constrói na e pela superação de realidades sociais perversas. A Paz se cria, se constrói na construção incessante da justiça social. Por isso, não creio em nenhum esforço chamado de educação para a Paz que, em lugar de desvelar o mundo das injustiças o torna opaco e tenta miopizar as suas vítimas. Paulo Freire (6) Crise na representação, rupturas, disrupturas, atualização; crise na Arte, simultaneidade, fragmentação, hibridismo; crise na educação e na sociedade, interdisciplinaridade, educação audiovisual e cidadania crítica, interação, imersão: são palavras recorrentes no presente artigo. Na constatação de Paulo Freire a educação tem o duplo papel: de tornar visível e de miopizar realidades. É miope a educação quando ela impõe uma realidade deconectada das pessoas participantes do processo. Ele avança, e responsabiliza a educação pela violência produzida nessa imposição. No fim das contas, tudo parece ser uma questão de justiça e luta contra as desigualdes. Ver ou não ver, olhar ou não olhar, estão indissociavelmente vinculados à Imagem, à Cultura Visual, à Representação, à Arte Visual. A Arte Abstrata, por exemplo, libera a nossa imaginação, quando nos possibilita o exercício de compreensão com autonomia, já que sua representação não nos prende à figuração. O que nos escapa ao imediatismo, pode nos levar a um salto imaginativo ainda mais elevado. E, essa constatação, pode nos levar ao entendimento de que mesmo figurativa, a Arte Visual não é uma representação da realidade. Basta, para isso, que se isole algum elemento gráfico/pictórico/escultórico de uma obra, para associá-lo à outro signo imagético, e, portanto, produzir um outro sentido – do olhar criativo. A Video-arte, é o apogeu de um processo, que poderá culminar na realização total entre Arte e Vida. As transformações ocorridas nesse tempo todo, afetaram também a relação do público com as Artes Visuais, que no Renascimento era espectador e hoje é partícipe do fenômeno artístico. Na escola, ao integrar o currículo, a Arte é uma possibilidade para que os alunos acompanhem e entendam essas transformações ocorridas, percebendo as mudanças, sejam elas artísticas, sociais, ou pedagógicas. O ensino da Arte tem o compromisso de, como preconiza o pensamento freiriano, colaborar em “desvelar o mundo das injustiças e superar realidades sociais perversas na construção incessante da justiça social”. A reprodução, na escola, dos valores hierárquicos e classistas, os espaços simbólicos de poder oprimindo as relações, os esteriótipos acerca do valor da educação, os preconceitos velados, as violências, os descasos ocultos no discurso de quem não pensa e não protagoniza sua prática mantendo-se tutelado por normas que no final nem são tão fiscalizadas. A evasão e abandono da escola contribui para o desperdício das verbas públicas da educação, e as Direções usam como desculpa a falta de dinheiro para não qualificarem sua gestão. Mas, também, há saltos de mudanças. Com inclusão, pensamento crítico, mais liberdade, diálogo e participação ativa dos alunos na sua aprendizagem: percebe-se a motivação dos que acreditam no papel emancipador da educação e no valor do conhecimento. No Brasil a Constituição de 1988 estabelece o Direito à Educação, e este direito será garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Ainda é muito cedo para assegurar que a educação é um projeto vitorioso no país, mesmo que com as tecnologias educacionais recentes seja possível avistar um horizonte de maior democratização do ensino, de mais acesso ao conhecimento. A Arte, em crise, tem mecanismos para se reinventar com mais facilidade, comparando com os desafios peculiares da educação e do trabalho no mundo contemporâneo. A Arte é o exercício da liberdade, em um mundo possível. Quem sabe, numa escola mais próxima da vida, a Arte possa estar ainda mais inserida na educação. Estudar mais, escrever mais sobre a própria prática, atuar nos espaços destinados a refletir sobre tudo isso, e contaminar o coletivo escolar para olhar mais agudamente a escola e as relações compartilhadas nela, será fundamental ao professor de Arte, no sentido de colaborar para que as mudanças inovadoras necessárias, em face das escolas que temos hoje, sejam implementadas, nos projetos político-pedagógicos das mesmas.
Notas
(1) Sobre a Arte do Renascimento e do Cubismo: FRANCASTEL, Pierre. Pintura e Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
(2) Sobre o quadro Las Meninas: FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas / Michel Foucault: tradução Salma Tannus Muchail. - 8ª ed. - São Paulo: Martins Fontes, 1999. - (Coleção Tópicos)
(3) Na tentativa de aprofundar um pouco mais o tema da representação, tornou-se recomendável a leitura do artigo de Lourival Pereira Pinto, onde ele busca nos pensamentos de Kant, Heidegger e Foucault, possíveis compreensões para o fenômeno da representação. Em Kant, para Pinto, traça-se uma equivalência entre a intuição pura de tempo e espaço e as flutuações conceituais e cognitivas na recepção e representação da informação. Em Heidegger, a questão se volta para uma possível interpretação da hermenêutica, dado que para este autor, a recepção de uma mensagem é uma possível apresentação para o sujeito que vige no tempo e espaço. Assim, as intuições puras do sujeito estão presentes na sua vigência, quando a mensagem se apresenta a ele. Finalmente ele afirma que, para Foucault, não existe a pura apresentação, mas tão somente a representação , uma vez que sempre se recorre a um signo para representar um objeto. A confluência desses pensamentos ocorre exatamente na vigência, porque o homem quando representa vige em um tempo e espaço. Ele é (o ser do ente) num dado momento de recepção da mensagem. Então, a mensagem se apresenta ao homem, que representa o conteúdo dessa mensagem por meio de signos. Ampliando o entendimento para a representação da informação e do conhecimento, e analisando esses fenômenos últimos, se entende que a mensagem, por enquanto, não pode ser conhecida na sua essência, porque a essência de um pensamento que emite a mensagem não se representa na sua totalidade, mas apenas se deixa mostrar com possíveis e limitados acenos. http://www.dgz.org.br/out10/Art_02.htm
(4) A escola fragmentada, dividida em disciplinas e grades curriculares, e distante da vida dos professores e alunos, se deparar, a cada dia, com um mundo que faz perguntas cada vez mais globais e urgentes, como a necessidade de considerar o todo, o planeta, a cidade. Quais os desafios da educação no mundo contemporâneo? Na palestra realizada pela educadora e filósofa, Dra. Viviane Mosé, é possível situar didaticamente o panorama da atual educação brasileira dentro do contexto de crise dos modelos que atravessamos, crise essa traduzida pelos novos meios de comunicação. Abordando a educação no Brasil, ela aponta para questões como o elitismo e exclusão, a industrialização tardia, a formação de mão-de-obra operária, o regime militar e e seus reflexos na estrutura curricular e nos projetos político-pedagógicos das escolas, entre outos temas. https://www.youtube.com/watch?v=EigUj_d5n80&feature=youtu.be
(5) Algumas alternativas radicais transformam o horizonte da educação no mundo. Palestrando sobre a viabilidade dessas mudanças, e sobre o futuro, o professor de Tecnologia Educacional, Sugata Mitra faz um desejo ousado de projetar a Escola na Nuvem, um laboratório de ensino na Índia, onde crianças podem explorar e aprender umas com as outras - usando recursos e monitoria da nuvem. É uma inspiradora visão dos Ambientes de Aprendizado Auto-Organizáveis, que contribui para se pensar possibilidades mais interessantes, e muito mais ricas do que as aprendizagens fundamentadas na mera transmissão de conteúdos. http://www.youtube.com/watch?v=Sw71Zrw0i3I
(6) www.pitangui.uepg.br/nep/biblioteca/ep.ana.FREIRE.pdf - acesso em 04.08.2013
Referências
ALMEIDA, Cândido José Mendes de. De Velasquez a Nam June Paik: a vídeo-arte. In: O que é vídeo. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 45-57. ARGAN, Giulio C. História da Arte como História da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1998. BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. MICELI, Sérgio (org.). São Paulo: Perspectiva, 1974. - O poder simbólico. Rio de Janeiro / Lisboa: Bertrand Brasil / Difel, 1989. - IN: O Ensino da Arte e a Pluralidade Cultural: Trabalhando com a Interculturalidade, Clarice Rego Magalhães. FUSARI, Maria Heloísa Ferraz e Maria F. de Resendi e. Metodologia do Ensino de Arte. Cortez, 1993. MACHADO, Arlindo. O vídeo e sua linguagem. Revista USP, n.16, 1993, p.1-12. Disponível em: http://www.usp.br/revistausp/16/01-arlindo.pdf. Acesso em: mar./2014. ROLDÁN, Ángel García. Videoarte en contextos educativos. Granada: Universidad de Granada, 2012. (tesis doctoral)

sábado, 15 de dezembro de 2012

2013 Derivar-te*

ssssss


http://wilsonantoniovieira.wordpress.com/2011/05/23/cont-mensagem-na-garrafa/

Sou a mensagem dentro da garrafa lançada ao mar.
Deixo,
portanto,
de ser,
perdido em um ilha gelada,
tropical náufrago.
Percorro o oceano nesse ano:
2012, odisséia nalgum espaço.
Enfrento tempestades, calmarias, lindas noites, lua e forma das marés.
Sobrevivo ao ataque dessas forças da natureza e atravesso sem bem notar se me deixo ou me faço levar. É então quando, quase no outro lado do oceano, a cápsula vítrea onde me alojo, sobe para acima da onda. E, na sua sua crista ela, a garrafa, choca-se noutras que nadam na agitada superfície.
Chocam-se e nesse encontro se partem.
Eu parto de um lugar, parto-me, partir... repartir-se, repartir, repatria-se, a pátria, o mar...
Os cacos,
do que desprovido do escudo interno de ar que escapa no choque,
vagarosamente mergulham cansados até o chão de areia do oceano,
no mar da praia.
A página de papel onde me inscrevo permanece flutuando e se dissolve, as linhas das letras se aguam e se borram.
Tudo se dilue no sal aquoso - de longe parece doce, e os encharcados pedaços do texto se encontram e se misturam uns aos outros, e com os outros tantos textos esfacelados...
A xícara de Proust no tempo resgatado pelo olhar, contendo as 'madeleines' que boiam no chá.
Sou alimento que repousa agora metamorfoseado em nata espumante, em acúmulo de tantas outras mensagens.
Chego.


*Desviar (curso de águas).
Formar (palavras) com a raiz de outras e sufixos.
Fazer provir.
Correr (falando-se de rios ou regatos).
Originar-se, provir: daqui derivou aquela desordem.
Ser arrastado por um curso de água: o madeiro derivou na corrente.
Descender: os Gamas derivam de boa estirpe.
Náut.
Descair, apartar-se do rumo: a barca derivou para Leste.
(Lat. derivare)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

AÇÕES DE PREVENÇÃO DE VIOLÊNCIA NA ESCOLA - Palestra do IV Encontro de Saúde Mental - Hospital de Clínicas. Porto Alegre - RS. Jorge Fortuna Rial – professor especialista em educação profissional para jovens e adultos - FACED/UFRGS. Assessor pedagógico / coordenador do Comitê de Prevenção à Violência na Escola – COPREVE, na 1ª Coordenadoria Regional da Educação. Pontuando alguns conceitos visando demonstrar de qual ponto estou partindo para problematizar conflitos e a prevenção da violência nas escolas e intercalando com dados e relatos da prática no cotidiano das ações de prevenção e violência. Na gestão de conflitos em escolas é tradicionalmente aceito que o papel de mediador seja o de apaziguar os ânimos, através de um veredito que condene o culpado a silenciar sobre suas razões. Verifica-se que o infrator/causador do conflito é reprimido ou é castigado, mas se espera que um trabalho pedagógico possa coletivamente problematizar as causas que ocasionaram a violência. Ao invés de enxergarmos o conflito em sua totalidade, nesses casos tendemos a excluir quem causa danos à rotina escolar. Paulo Feire, ao receber o Prêmio Educação para a Paz da Unesco (Paris, 1986), deixou bem claro qual era sua convicção: “De anônimas gentes, sofridas gentes, exploradas gentes, aprendi sobretudo que a paz, é fundamental, indispensável, mas que a paz implica lutar por ela. A paz se cria, se constrói, na construção incessante da justiça social. Por isso, não creio em nenhum esforço chamado de educação para a paz que, em lugar de desvelar o mundo das injustiças , o torna opaco e tenta miopisar as suas vítimas”. Para mediar conflitos ou realizar ações de prevenção à violência nas escolas tem de se considerar que o enfrentamento com repressão/reação por si só não desvela nada, nem educa, apenas muda o problema de lugar ou reprime demandas sociais latentes. Muitas vezes nos defrontamos com casos em que gestores veem na repressão violenta e física a única alternativa viável para lidar com os conflitos. Eles lamentavelmente acreditam que somente a policia é capaz de promover a segurança. Equivocadamente recorrem a expedientes constrangedores e, ao invés de resolver os conflitos acabam por proliferar ainda mais violência e conflitos nas escolas, esgotando qualquer possibilidade de diálogo e mediação. Para transformar esse quadro é fundamental a compreensão que a violência, em suma, é a expressão de um conflito que não encontrou adequadamente linguagem que possa expressá-lo. É fundamental que o coletivo escolar seja responsável pelas ações de prevenção à violência. Sem o esforço de gestão que venha a: Partilhar, Participar, Dialogar e Pacificar democraticamente no coletivo escolar, iremos nos manter reproduzindo as estratégias arcaicas de repressão que, física ou simbolicamente, eram estratégias tão violentas quanto eram as próprias violências geradas nos conflitos. A violência é incapaz de transformar e aprimorar a linguagem, essa que por sua vez, é característica do ser humano. Os animais irracionais repetem suas ações e não transformam a própria linguagem, portanto não têm conflito de qualquer natureza. “O que aos poucos se descobre é que não se tem identidade quando se está no ato de fazer alguma coisa. Identidade é reconhecimento, você sabe quem é porque os outros se lembram de alguma coisa sobre você, mas essencialmente você não é isso, quando está fazendo alguma coisa. Eu sou eu porque meu cachorrinho me conhece, mas, do ponto de vista criativo, o cachorrinho saber que você é você e você reconhecer que ele sabe é o que destrói a criação. É o que faz escola. Picasso uma vez comentou: pouco me importa quem me influencia desde que não seja eu mesmo.” A escritora Gertrude Stein nesse trecho de "O que são as obras primas e porque são tão poucas?" aponta para essa diferença que nos permite aprimorar a linguagem. O trabalho em ações de prevenção de violência na escola se assemelha ao processo artístico, pois exige de nós que sejamos criativos e nos libertemos de modelos prontos que nos acomodam e assim busquemos soluções inéditas, que contemplem diferentes táticas de enfrentamentos, assim como um artista busca diferentes estratégias para desencadear seu processo e criar a obra de arte. Ainda sobre a identidade, porém a do professor em sua prática de ensino, no livro “Iniciação à Docência em Artes Visuais”, é apresentado o item de um guia, onde consta a orientação: “Seja artista, professor, poeta, amigo e, se necessário, até policial. Jamais seja um juiz. Ninguém está na escola para ser condenado ou absolvido, ganhar o paraíso ou ir para o fogo do inferno. Trouxe o conceito de Saúde Mental que me pareceu mais aproximado do universo pedagógico, e da prevenção, pois é onde as ações do COPREVE são enfatizadas na promoção de processos de interações sociais e aprendizagens que qualificam os espaços escolares. Saúde Mental na Infância e Adolescência: Bom nível de qualidade de vida cognitiva ou emocional Processo constante de adaptação às próprias transformações biológicas, ao crescimento e às mudanças psicológicas Adaptação ao longo do tempo, em função das suas capacidades em desenvolvimento e das relações que se estabelece com o exterior Diogo Araújo de Sousa - Psicólogo, membro do Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua (CEP - Rua / UFRGS). As causas e a natureza dos conflitos também me parecem relevantes de citação, pois permitirá ampliar o horizonte do nosso entendimento. O conflito, seja em que espaço social se localize, não é um fim em si mesmo, e sim um reflexo de violências e tensões do mundo, interno ou exterior à escola. Ter a visão do contexto é fundamental nas ações de prevenção à violência. Causas do conflito Recursos Tempo, dinheiro, espaço Necessidades Social, emocional, psicológico Valores Como o mundo “deve” ser Carlos J. Nieto - Psicólogo Numa perspectiva contemporânea da Prevenção à Violência e seu estudo gostaria de citar os trabalhos de Alberto Kopttike e Miriam Abramovay. O primeiro - Alberto Liebling Kopittke, advogado. Atualmente é o presidente da ONG RS Mais Seguro, após deixar a Diretoria Executiva do Consórcio Metropolitano. Atuou como Secretário Municipal de Segurança Pública e Cidadania do município de Canoas, RS (2010). Entre 2007 a 2008 foi chefe da Assessoria Parlamentar do Ministério da Justiça e coordenador geral da 1ª Conferência Nacional de Segurança Pública (Conseg), na gestão do Ministro Tarso Genro. Em 2006 foi chefe da Assessoria Internacional do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) da Presidência da República, também na gestão de Tarso, no Ministério das Relações Institucionais. Miriam Abramovay, nascida em São Paulo, foi durante anos professora da Universidade Católica de Brasília e coordenadora do Observatório de Violência nas Escolas – Brasil, ela coordenou diversas pesquisas e avaliações da UNESCO, foi consultora do Banco Mundial e do UNICEF. Exerceu o cargo de Secretária Executiva do Observatório Ibero-americano de Violência nas Escolas de julho de 2006 a janeiro de 2008; Conselheira do Conselho Nacional de Juventude de agosto de 2005 a janeiro de 2008; Coordenadora do Setor de Pesquisas da RITLA (Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana) de janeiro de 2008 a dezembro de 2010; coordenadora e professora do Curso “Juventude, Diversidade e Convivência Escolar”, da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal, 2009 e 2010. Atualmente é Coordenadora da Área de Juventude e Políticas Públicas da FLACSO (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais); Coordenadora do Projeto Violência e convivência nas escolas brasileiras. Certa vez, numa palestra, indagada sobre o fato de que as violências, que são trazidas para dentro das escolas, têm origens externas, ela respondeu que nas escolas, pelo seu contingente de pessoas convivendo como em nenhum outro lugar convivem, é onde existe a única possibilidade de resolução do problema das violências, pois se sabe que no espaço social onde nascem as injustiças e violências isso já não é mais possível. O quadro apresentado a seguir é de autoria de Kopittke:
Rotineiramente são atendidos, no Setor Pedagógico da Coordenadoria Regional de Educação, em Porto Alegre, direções, professores, funcionários, alunos e seus responsáveis, trazendo relatos dos mais diversos tipos de conflitos e violências. Desde agressões verbais ocorridas dentro da sala de aula, passando por casos de violências físicas ou vandalismo na escola, até casos extremos externos ao ambiente escolar que resultam em pequenas batalhas ou mesmo em trágicos desfechos. Cotidianamente estamos atentos aos fatos, e coletivamente na coordenadoria, e juntamente com as escolas e instituições parceiras buscamos promover a resolução desses conflitos. No COPREVE da CRE, o grupo de trabalho que coordeno tem como premissa aprender a lidar com os conflitos ao lidar com eles. “Não sabemos como fazer, mas ao fazermos juntos aprendemos, compartilhando nossa vontade de aprender sobre o que fazemos”. A experiência pregressa dos integrantes do grupo em sala de aula, no cotidiano das escolas onde lecionávamos, subsidia nossas ações, o que colabora sensivelmente no enfoque multidisciplinar, para enxergar as situações que se apresentam e encaminhar soluções. A gestão de conflitos no COPREVE se estabelece a partir da escuta nesses atendimentos, quando se verifica em qual ordem estão imbricadas as causas e consequências, para o discernimento dos encaminhamentos - se meramente pedagógicos, ou de recursos humanos, administrativo, jurídico, ou se alcançou a esfera da segurança pública - policia civil e brigada militar, conselho tutelar, ou ainda se é de natureza da saúde ou da assistência social. Há casos, por exemplo, em que os conflitos nas relações ultrapassam os limites do espaço escolar, e demonstram-se insuficientes as ações pedagógicas - quais sejam: encaminhamentos da orientação escolar, da supervisão e da direção na resolução de conflitos. É necessário integrar esforços junto às outras instituições para encontrar saídas viáveis. Para obtenção de resultados efetivos nessa integração necessitamos estabelecer conexões diversas que possam ser acionadas na resolução de conflitos. Por isso, hoje em dia, ocupamos assento no comitê gestor do RS na Paz como adjunto ao representante da Secretaria Estadual da Educação; participamos de Fóruns de Segurança e Justiça, vamos aos encontros de Rede dos bairros de Porto Alegre, integramos e também realizamos seminários e cursos que têm como temática a prevenção à violência nas escolas. Nesses momentos em que fortalecemos as relações institucionais nós angariamos parceiros que podem nos auxiliar quando necessário, em situações que extrapolem nossa competência de solucionar conflitos. Em 2012 realizamos no primeiro semestre, o I módulo do Curso de Mediação de Conflitos para os Territórios da Paz e Comitês de Prevenção à Violência nas Escolas em Porto Alegre. Aberto para a participação de professores, orientadores, direções, alunos, funcionários e comunidade, representantes da 1ª CRE, do Conselho Tutelar, bem como policiais militares e outros, o curso teve por objetivo instrumentalizar tecnicamente mediadores de conflitos, e também fortalecer a parceria entre as escolas e instituições envolvidas no processo de mediação para prevenção à violência nas escolas e seu entorno. Um quadro, amostragem de um dos COPREVE onde o curso aconteceu, foi elaborado pelos presentes naquela ocasião e apresenta como é percebida a manifestação dos conflitos dentro e no entorno das escolas. Esses, juntamente com os levantamentos de dados dos atendimentos realizados na coordenadoria estão desenhando o panorama de conflitualidades e violências nas escolas estaduais de Porto Alegre. A origem do COPREVE está no PRONASCI – O Programa Nacional de Segurança Cidadã, já extinto, do governo federal, esse que instituiu em Porto Alegre os quatro Territórios da Paz. São eles: da Restinga, Rubem Berta, de Santa Teresa/Vila Cruzeiro do Sul, e da Lomba do Pinheiro. Os altos índices de vulnerabilidade das regiões foi o critério determinante para essas escolhas. Em continuidade com o citado programa, o RS na Paz surgiu como uma política de governo do estado do Rio Grande do Sul. As diretrizes para ações do Comitê de Prevenção à Violência nas Escolas da Secretaria de Educação foram então delineadas e, consequentemente, no COPREVE da 1ª Coordenadoria Regional da Educação, encontram o propósito de execução. Dentro dessa compreensão foi que em agosto de 2011 formalizou-se na 1ª Coordenadoria de Educação, O Comitê de Prevenção à Violência nas Escolas de Porto Alegre – o COPREVE. É sabido que muitas, senão todas as 257 escolas estaduais de Porto Alegre tem alguma ação de prevenção à violência. Para ajudar na melhoria dos espaços físicos das escolas, juntamente com os investimentos de infraestrutura e preservação, se necessita que, com ações de prevenção à violência se fortaleça o sentimento de pertença na comunidade que usufrui desses espaços. Sem a qualificação das relações de convivência, que possibilite manter a harmonia necessária ao ambiente escolar, a melhoria do espaço escolar por si só não evitará a precarização que hoje, felizmente se está conseguindo erradicar da educação. Reformas pedagógicas, como a progressão das séries iniciais, a reforma do ensino médio, os estudos de projetos políticos pedagógicos, a redefinição das atribuições dos conselhos escolares, as mudanças dos regimentos escolares, as eleições de direções, tudo isso mexe com os sentimentos das pessoas, e precisa ser muito bem encaminhado, conjuntamente com ações de prevenção à violência, que possa vir a se manifestar, por conflitos gerados nesses processos de gestão de mudanças. Os programas Escola Aberta, Mais Educação, e os projetos Trajetórias Criativas, Trilhando os Caminhos da Literatura, são prioritariamente desenvolvidos em escolas do COPREVE. Apoiamos os eventos do RS da Paz Comunidades, nos Territórios da Paz da capital, motivando a participação das escolas na formulação da cartilha da rede de atendimento dos Territórios da Paz. Incentivamos também a que as escolas participem de fóruns e se integrem com as escolas vizinhas, criando os Comitês de Prevenção à Violência nas Escolas, no zoneamento urbano onde se localizam. Hoje, além das escolas localizadas nos Territórios da Paz, a coordenadoria congrega os COPREVE Jardim Carvalho, Ilhas, Oscar Pereira e Bom Jesus. Em 26 de junho de 2102 foi sancionada pelo governador do estado Tarso Genro a lei das Comissões Internas de Prevenção de Acidentes e Violência nas Escolas. Esses comitês começaram a ser formalizados a partir de ações realizadas na cidade de Caxias do Sul. O COPREVE da 1ª Coordenadoria e das escolas de Porto Alegre tem que, junto aos CIPAVES: I - identificar os locais de risco de acidentes e violências ocorridos no âmbito escolar e arredores, fazendo mapeamento dos mesmos; II - definir a frequência e a gravidade dos acidentes e violências ocorridos na comunidade escolar; III - averiguar circunstâncias e causas de acidentes e violência na escola; IV - planejar e recomendar medidas de prevenção dos acidentes e violências e acompanhar a sua execução; V - estimular o interesse em segurança na comunidade escolar; VI - colaborar com a fiscalização e observância dos regulamentos e instruções relativas à limpeza e à conservação do prédio, das instalações e dos equipamentos; VII - realizar, semestralmente, estudo estatístico dos acidentes e violências ocorridos no ambiente escolar, divulgando-o na comunidade e comunicando-o às autoridades competentes. A Secretaria de Educação, atualmente, realiza pareceres técnicos acerca da lei para viabilizar sua execução. É fundamental que se disparem dispositivos pedagógicos, para permitir aos alunos, acessarem sua cidadania com segurança, com saúde, com assistência social, e com educação. Temos, no COPREVE, compromisso assumido com o fortalecimento dessas ações para que, nesse processo tenhamos todos, então assegurada, a prevenção à violência nas escolas.

domingo, 7 de outubro de 2012

Diários de Classe das Redes Sociais


Num sábado pela manhã passei conhecendo os Diários de Classe de Santa Catarina, da Paraíba e da Bahia, publicados em redes sociais. O ex-aluno Fernando comentou elogiando, então me interessei em ver. Alguns elogios e outras críticas. Certamente, sem a pretensão de eu legitimar uma ou outra, quando a manifestação inteligente através da linguagem se expressa essa é mil vêzes preferível à violência física. Disse violência física, não contra as pessoas, que é abominável, mas ao patrimônio público, como em casos de pixação, de vandalismo e de quebra-quebra. A palavra pode ser perigosa. Forças repressoras e ditatoriais justificam seus atos pela reação à manifestação livre das ideias, e isso não é nenhuma novidade. Direitos humanos, proteção à crianças e adolescentes, respeito à diversidade são novidades no Brasil. Por detrás dos Diários de Classe dos alunos, percebo o desvelamento da possibilidade de interagir coletivamente, trazendo às claras o cotidiano das escolas, suas necessidades, as mazelas, as vitórias, as qualidades. Há que avançar no processo. Se o comentário é sobre a mesa do professor que está quebrada, tem de se pensar que essa mesa seja talvez desnecessária, por isso se quebrou. Talvez uma poltrona confortável seja mais adequada e útil, para quem passa 40 ou 60 horas na escola, do que uma mesa. A grade precisa de conserto? Grades depõem concretamente sobre inacessibilidade ao espaço escolar. Precisamos realmente delas? Através de assembléias escolares, da participação coletiva da comunidade escolar, do poder fiscalizador do conselho escolar, contando com a assessoria pedagógica das secretarias de educação, é que se realizam decisões democráticas. As escolas necessitam desenhar seu projeto político pedagógico, em sintonia com a filosofia que sensivelmente determinam para orientar sua prática e gestão, e então constituírem o regimento escolar. O processo tem de ser vísivel, transparente, para que as reinvindicações, justificadas num contexto e experiência real, sejam mais do que trocar lâmpadas, ou pintar portas. A faixa etária dos alunos que fazem os diários os limita na compreensão de alguns fatores determinantes da realidade escolar, e isso tem de ser considerado. Nós, adultos, não podemos nos apropriar literalmente de tudo que manifestam, e temos de entender que a autonomia deles – enquanto capacidade para julgar moralmente suas escolhas, ainda está se fortalecendo. Nosso dever, como educadores é apoiá-los e subsidiá-los para esse fortalecimento. Jamais, cometer a perversidade de usar a manifestação deles como voz das nossas necessidades. Isso seria covardia de adultos. Devemos incentivá-los a sensivelmente perceberem as consequências de suas práticas, a buscarem parcerias nos colegas, a interagirem pelo diálogo franco e direto, sempre que possível. Pois a dimensão das ações que praticamos não pode ser medida em número de comentários ou curtidas que outros publiquem nas redes sociais. As consequências devem nos sensibilizar de que através do que realizamos nossa existência adquire sentido, em harmonia e coerência com a essência do que somos nesse planeta e em nossa humanidade.

domingo, 26 de dezembro de 2010

2011, Eu e o Morcego

2011, Eu e o Morcego.
Não é medo. Pelo menos, não o medo cotidiano, o de ficar sem grana para pagar contas, medo de ficar sem saúde, das perdas.
Encolhido e deitado, aproveitando a sombra que a parede do tanque de lavar roupa encobria o pequeno animal, ele parecia indefeso e feio, fazendo movimentos quase imperceptíveis que davam pistas de que a fadiga o trouxera até ali. Eu precisava do tanque. O invasor não estava nem aí para minha angústia em retomar o lugar na geografia da área de serviço. Apropriou-se, do cantinho, e ponto final. Estratégias foram planejadas para a ação de retomada do tanque e banir o invasor. Luvas, vassoura, pano de chão, eram as ferramentas escolhidas para o combate. Lancei sobre o inimigo o pano. Não percebi qualquer reação. Está definhando, imaginei. Avaliei a situação e levantando a hipótese pensei em agarrá-lo com as mãos enluvadas e jogá-lo pela janela. Decidi pelo afogamento. Abri a torneira. O morceginho cansado agonizava em baixo do pano de chão por uns minutos, e eu já me antevia juntando, com a pá, ele morto, e depois de ensacá-lo, fazer o sepultamento na lixeira do condomínio. Alguns minutos se passaram, e o bicho começou a nadar na piscina, em que o tanque se transformou. Atlético, ele respirava. Com os olhinhos pretos e brilhantes parecia tentar enxergar uma escapatória para seu destino funesto. Quer deixar um bicho morrer? Não olhe jamais para seus olhos. Do contrário, o instinto de preservação da vida irá convencê-lo ao salvamento.
A estratégia agora era para livrar o animal da morte iminente. Tomando certa distância alcancei a vassoura para que ele, agarrado nela, tivesse como sair da água. No movimento de retirá-lo o cabo da vassoura bateu no jarro antigo de cobre da prateleira de folhagens. Esse caiu e teve a base separada do corpo. Água, terra e planta ficaram esparramadas pelo chão. Meu olhar distraído perdeu a localização do morcego. Não sei se ele escapou pela janela, ou se alojou atrás do pedestal do tanque. Parece que estava sobrevoando os telhados dos outros prédios. Não sei se o reconheceria ao vê-lo novamente. Escutei uns gritinhos agudos misturado aos sons dos pássaros, que costumo ouvir daqui do 9º andar do edifício. Seria um agradecimento? Fui até a cozinha. Olhei para as pontas dos dedos da luva amarela tingidas de vermelho. Sangue? Tinta, eu pensei, aliviado. Por garantia vou manter ainda as janelas fechadas.
Os morcegos fizeram parte, por algum tempo, da minha vida. Na adolescência eu convivia, atemorizado por eles, no centro de Porto Alegre, onde moram nas casas antigas. O apartamento moderno e confortável onde passei boa parte da juventude era assombrado pela sua presença, o que de alguma forma anunciava uma intranqüilidade, um incomodo, uma insegurança, em meio à estabilidade do lar que nossa família buscava e que até hoje procura manter nos frágeis elos que nos unem. Fragilidade essa, que quando habita almas persistentes, pode resistir a grandes e amargos revezes.
O fato é que, a ocorrência desagradável dessa manhã de dezembro, que trouxe à minha memória lembranças bizarras esmaecidas no tempo, talvez seja disparadora, ou catalisadora, me fazendo mergulhar nessas narrativas vivas das nossas histórias. E, imerso nessas experiências cotidianas, ser capaz de olhar nelas metáforas, que expandam os sentidos alcançando melhores e mais confortáveis formas de satisfazer nossas necessidades humanas.
Para o bem e para o mal, um ano de 2011 cheio de verdade, é o que desejo!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

DISCUTINDO A RELAÇÃO.
Nada nos explica. Tudo nos afeta.
Conviver é a arte da tolerância. Tentar aceitar o mundo que a cada dia que passa parece evoluir para tornar-se inabitável é o eterno exercício de aprendizagem: imenso desafio. Muitas vezes sucumbe-se a acomodação e, até poder recuperar o fôlego para seguir em frente- a imagem é a do Angelus Novus , ícone pós moderno de Paul Klee, impõe-se uma condição catatônica, para que não se regrida, já que é impossível avançar no tempo coletivo.
Por mais que se permitam paradas para estacionar a alma, sempre tem uma hora que não é possível mais se deixar ficar. A esperar? O que? A última gota que vai transbordar um copo já cheio de mágoas? O que está a escorrer será já impossível conter. Por isso o que empurrei com a barriga e deixei para mais tarde se apresenta a me alertar que “mais tarde” é agora.
Eu conto as chaves, do carro, da porta do apartamento, da grade do apartamento, da porta do edifício, do portão do condomínio, da porta de entrada da escola, da sala de aula, da sala de aula da outra escola, do armário na sala dos professores, dos controles remotos que são chaves eletrônicas da garagem da escola, da garagem perto de casa; e as senhas, que são como chaves dos cartões dos bancos, e das lojas, e da internet, do MSN, e do que eu nem sei mais e todo o dia eu como, eu bebo, eu levanto; saio, volto, durmo e sonho, eu lavo, limpo, passo, sujo, telefono, eu escrevo, acordo, escuto, digo, eu esqueço, brigo, adormeço, suo,respondo, olho, desvio, dirijo, eu sofro, rio, danço, eu canso. Eu planejo, desisto, desligo, interrompo, reclamo, leio, pago, confundo, guardo, engordo, alucino, desapareço, machuco, eu toco, assopro, eu desencano, canto, desafino, sussurro, rejeito. Eu exercito , peno, canso; eu escovo, eu molho, rezo, eu odeio, eu corto, respiro. Quanto eu!
Quero separação de mim.
Não quero me separar.
Quero o movimento contraditório do querer. A mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo? Nada mais terrivelmente difícil.
Silêncio secreto. O espírito é quieto. A água que chove agora lava o mundo. As gotas do chuveiro do banho me lavam. O rio já não repete suas águas. O volume do copo metafísico se expande para conter, já sem mágoas, a verdade de que ainda eu sou a minha melhor opção.
Já que sou obrigado a me aturar eu vou tentar salvar, quem sabe, a filosofia.
Daqui em diante, amigos: o melhor de mim.
FELIZ NATAL E 2010
Jorge Fortuna Rial

sábado, 31 de outubro de 2009

AOS 50

Essa imagens são do meu processo para criar 50 pinturas em óleo sobre tela com o objetivo de comemorar em setembro de 2010 meu aniversário. 1 obra por ano de vida.
Terei muito trabalho para além de produzir o trabalho, emoldurá-las, conseguir local seguro para expor, divulgar, interessar compradores, apoios e patrocínios.









Todas as sugestões nesta fase inicial de projeto são bem vindas.